domingo, 1 de março de 2009

Sigilo universal

Às vezes, um dia nublado pode ser quente, muito quente. A natureza anda um tanto esquizofrênica. Até acho que ela quer se parecer mais com a gente, que é humano. Sei que um dia cheio de nuvens não poderia ser assim, veja bem: As nuvens nos pedem roupas frias, e me é doloroso reconhecer o que deve ser algo como o vento ou como a própria verdade – a história da climatologia está morta.

sábado, 31 de janeiro de 2009

1959

Vi que os seus olhos são reais, assim como as suas mãos e as suas pernas. Olhei para o seu rosto e percebi que ele era real. Eu não pude ver os seus pés, mas tenho certeza de que também são reais. Sinto a falta de um ombro amigo, sinto a falta de flores, de sementes e rosas. Tem gente que não parece ser humana. Gente que joga feitiços, gente que tem um apelo hipnotizante. E ele bem sabe de tudo isso. Disseminam paixões desmedidas, mas se mostram incapazes de sentir um mínimo grau de apego, de ternura, e tratam o amor como um jogo de fantoches controlados pelo gelo, pelas pedras, por cetros, coroas e cadeados. Por isso anseio pelo seu rosto real, a abrigar olhos também reais, e percebo que o real é a essência das mais turvas fantasias. Ele pode ser o que for. Pode me matar de sofrer. Cega e enfeitiçada, um brinquedo para os dias menores, um enfeite particular. Que o faça. Mesmo assim. Seu encanto é mais poderoso, pois você tem todo o tempo todo do mundo para me enfeitiçar. Você não faz o mundo desabar todas as manhãs em que eu acordo com a garganta repleta de lágrimas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Love Addiction

Às vezes faço coisas que não sei explicar. E quanto a ti, oh dona do ar? Nunca fizeste um gesto sem o pensar? Uma reação espontânea, um sorriso fora de hora, um piscar de olhos inconseqüente, um fumar inexistente, uma queda do altar? Pois me diga, com a tua imensa sapiência pós-adolescente, o que achas dos puteiros colocarem estátuas de belas gregas na entrada, nas escadas, nas fontes artificiais? Tu a quem tanto agradam o os efeitos da simetria, o choque impossível da perfeição. Aceita, como já dito há muitas luas atrás, que uma virgem nada pode saber das aflições e sofrimentos do mundo. (para provar o teu tamanho apreço pela tradição). Não pagaste com o teu sangue o altíssimo preço do êxtase terreno, e pouco ou nada sabes de mitos e elegias, da suposta sobriedade do mundo, permeada pelo contínuo deslizar do tempo, nos templos, nos pêndulos, na tua própria morada. E verás que o céu já é mar.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Colóquio artesanal

Ele tinha um gosto desconhecido. E eu lutava contra as minhas pernas, pois elas me guiavam para lugares ancestrais, e no tempo presente eu apenas podia reconhecer o riso gelado de muitas vozes que jogavam para ganhar. Elas me julgavam, por não aceitar o meu comportamento vulgar. Eu vacilava. Flutuava ante a ausência, coisa alguma, que não se poderia explicar a céu aberto. Mas eu precisava respirar. E demorei a me permitir a clausura. Ele tinha um gosto que me lembrava das muitas estrelas desaparecidas do além-mar. Não sabia se estavam mortas, mas reconhecia que não poderia vê-las por muito tempo. Talvez não as visse no quintal, talvez eu sonhasse com a luz de astros que há milênios residiam há milhas do sistema solar. Ele insistia para que eu parasse o sofismar. Iludia-se, eu mal poderia dizer a mim mesma o que esperar. Ele era tudo o que eu poderia querer, pois nada além dos seus olhos era o bastante para me perseguir pelas infindáveis horas do dia, da noite, da alvorada, dos minutos, do nunca mais. Como ele achara tempo para fugir às obrigações do planalto? Seguro-me, pois sou forte e poderia sustentar o cismar de um déspota aterrador. Sobrevivo à falta de ar. Muito mais. Afogo-me quando ele me esconde, de propósito, as águas do mar.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Imperatriz

Já tive muita raiva. Exasperava. Fugiria para o Himalaia caso pudesse. Subiria aos céus. Desceria aos malogros da terra roxa. Eu não saberia, não entenderia para onde deveriam os ares me levar. Mas não. Em momento algum desejei sumir contigo. Irava tal pimentão. Chorava de ranger cartilagens, não dormia antes de ver pus e sangue pingando das mãos. Ilusões dissipadas pelos sonhos e pela noite. E ao me olhar, olhava-te, e tinha a certeza de que a genética era parte dos astros e do cosmos e de que eu nunca poderia me separar de ti. Bem sei que estás a milhas de meu humilde condado. O aluguel está atrasado, faltam-me os ingredientes essenciais para que eu possa cozinhar a receita da vida. Mordo-a, e sinto-a crua. Muitos anos se passaram em vão. Gira a roda estéril que não nos tira do chão. O desgaste a que fora submetida te faz pensar que não sinto a falta do teu calor. Sinto que tuas mãos estão frias, tuas bochechas estão congeladas, teus braços estão trancados, e teu peito envenenado. Acusa-me de ter roubado de ti o fogo. Acuso-te de ter roubado o fogo de ti mesma. Não sei como te explicar. Um olhar bastaria, já que eu não poderia abraçá-la sem trincar o gelo das tuas pálpebras. Pois às vezes sinto que as calotas polares derreterão muito antes da tua Fortaleza.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nominus

Eu não quero ser como ela. Que diz não acreditar em Deus, mas faz questão de montar a árvore de natal. Tampouco quero ser como ele. Estava com a vida perdida, e mesmo assim insistia pra eu assistir O Segredo e pensar positivo. Uma semana depois ele virou um homem de negócios. Também não quero ser como eles, que se desentendem ao rabiscar com tinta as folhas do jornal. E têm a estranha mania de fumar todas as pontas. Quero o embaraço das coisas mais simples. Quero usar duas lentes transparentes no meu rosto. Presas por um aro. Atrapalho-me toda. Esqueço-me de guardá-los. Às vezes até me esqueço de viver. Só porque as lágrimas já secaram. Mal pude perceber os olhos teus!...

sábado, 29 de novembro de 2008

Self

Eu não sei o meu nome. Por não sabê-lo, assumo variadas identidades. Algumas me perseguem. Persigo-as também. Deixo-as entrar. Elas estão em mim, o tempo todo.
Sou um aglomerado de células nervosas. Às vezes, a afasia é o que sobra de todo este desperdício. Explico-me, mas ao contrário. Afinal, quem entenderia tais divagações? Procuro pelo meu nome. Encontro um espelho. Procuro-te, em seguida, ao lado de uma agenda vazia. Vigio o pequeno lago das águas turmalinas. O que vejo é o reflexo de um ente desconhecido, encimado pelos valorosos segredos do anonimato.