domingo, 31 de maio de 2009

Cânone

I.
O céu é azul
O mar é azul
O meu coração também

II.
No alto o céu
Embaixo o chão
No meio o coração

III.
Na Blue Night Show da Augusta
Todas as putas são sereias
E é por isso que eu sempre estou lá

Fascinação

Ela tem um sorriso bonito, distraído, descontraído, instruído, genuíno, encantador. Tantos anos de pesquisa, de escrita, entrevistas, de luta, de silêncio, de dedicação. Rita, os teus olhos verdes e sombreados, tuas curvas bem definidas, ah! Conheces a história e as escolas, e ainda os brincos, sapatos... Como ele pode, ainda assim, te pedir um intervalo?

Rita, os teus olhos são vivos e preenchem o mundo com a tua presença avassalarora. Nada do que dizes inspira as abstrações das montanhas. Ainda assim, não se duvida dos duros percalços a que um dia foste submetida. Afinal, és mulher e és humana. Mas os teus olhos grandes e lindos não o mostram. És fada, fada querida. Rita! Quando entras, tudo floresce, em ti tudo combina. Tu, que dedicaste aos pais a realização de teus sonhos e trabalhos. E eu sei que quando entras, já se passa da hora de acordar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Maio de 1989

E por mais que eu não possa compreendê-la, ainda assim posso vê-la com as mãos vazias a esperar por uma rosa que não veio. Também posso ver o inverso. Posso vê-la cansada e sozinha a brincar com uma rosa nas mãos. Por mais que ele a ame, assim como eu não posso compreendê-la, também ela não pode compreender aqueles gestos maiores de ternura e de devoção (tão avessos que parecem ser a ele). O amor é não obstante um vulto ininteligível, um espasmo, uma abstração. Por mais que ele tome conta de todo o seu ser, e lhe tome do corpo as forças, e dos músculos as formas. Não, não se pode compreendê-lo. E a sua expressão será, por consequência, sutil ou inesperada, nula ou turbulenta, e não sucumbirá diante do pó e da alquimia. Talvez ele te faça querer matar-se. Ou ainda em ser a luz que alimenta as estrelas (ou, ainda, as próprias estrelas imortais a iluminar a Terra). Tudo isso, ou ainda qualquer outra coisa. Qualquer coisa líquida que possa moldar-se muitas vezes, e infinitamente de incontáveis modos. Ainda tudo isso é amor.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Emocore

Mesmo que eu arrancasse todas as páginas do diário. Que eu apagasse tudo o que foi escrito, mesmo assim. Se eu queimasse todos os diários de todas as papelarias do mundo. Nada disso poderia arrancar de mim as páginas decompostas das coisas que me foram ditas, dos olhares amaldiçoados que me lançaram tal como marca de nascença. Nada me poderia curar, agora que estou doente e vazia de qualquer sentimento humano. Se ainda sou capaz de chorar, não é por mim mesma, nem pelo mau que a mim causaram. É algo inevitável, assim como o respirar, ou como o pulsar do coração. Algo que não pode ser controlado.

No entanto:
Se você olhasse para os meus olhos e dissesse que está tudo bem... Não pediria mais nada. Eu só queria que você me levasse até a cama para que eu pudesse dormir. Ao seu lado.

domingo, 1 de março de 2009

Sigilo universal

Às vezes, um dia nublado pode ser quente, muito quente. A natureza anda um tanto esquizofrênica. Até acho que ela quer se parecer mais com a gente, que é humano. Sei que um dia cheio de nuvens não poderia ser assim, veja bem: As nuvens nos pedem roupas frias, e me é doloroso reconhecer o que deve ser algo como o vento ou como a própria verdade – a história da climatologia está morta.

sábado, 31 de janeiro de 2009

1959

Vi que os seus olhos são reais, assim como as suas mãos e as suas pernas. Olhei para o seu rosto e percebi que ele era real. Eu não pude ver os seus pés, mas tenho certeza de que também são reais. Sinto a falta de um ombro amigo, sinto a falta de flores, de sementes e rosas. Tem gente que não parece ser humana. Gente que joga feitiços, gente que tem um apelo hipnotizante. E ele bem sabe de tudo isso. Disseminam paixões desmedidas, mas se mostram incapazes de sentir um mínimo grau de apego, de ternura, e tratam o amor como um jogo de fantoches controlados pelo gelo, pelas pedras, por cetros, coroas e cadeados. Por isso anseio pelo seu rosto real, a abrigar olhos também reais, e percebo que o real é a essência das mais turvas fantasias. Ele pode ser o que for. Pode me matar de sofrer. Cega e enfeitiçada, um brinquedo para os dias menores, um enfeite particular. Que o faça. Mesmo assim. Seu encanto é mais poderoso, pois você tem todo o tempo todo do mundo para me enfeitiçar. Você não faz o mundo desabar todas as manhãs em que eu acordo com a garganta repleta de lágrimas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Love Addiction

Às vezes faço coisas que não sei explicar. E quanto a ti, oh dona do ar? Nunca fizeste um gesto sem o pensar? Uma reação espontânea, um sorriso fora de hora, um piscar de olhos inconseqüente, um fumar inexistente, uma queda do altar? Pois me diga, com a tua imensa sapiência pós-adolescente, o que achas dos puteiros colocarem estátuas de belas gregas na entrada, nas escadas, nas fontes artificiais? Tu a quem tanto agradam o os efeitos da simetria, o choque impossível da perfeição. Aceita, como já dito há muitas luas atrás, que uma virgem nada pode saber das aflições e sofrimentos do mundo. (para provar o teu tamanho apreço pela tradição). Não pagaste com o teu sangue o altíssimo preço do êxtase terreno, e pouco ou nada sabes de mitos e elegias, da suposta sobriedade do mundo, permeada pelo contínuo deslizar do tempo, nos templos, nos pêndulos, na tua própria morada. E verás que o céu já é mar.