quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Isamara

Isa não foi o nome da menina da novela, mas Isa eram. Letras que sonhavam o prefixo de um novo mundo. Aurora, o poente e o pinheiro - tombados para o lado direito -
foi a última vez que a vi. Isa não era bela, mas era mar, ah, Isa, mar, ah, Isamara...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Todo dia

Eu poderia morrer por você, eu bem poderia morrer de amor. Mas o céu nublado lá fora me faz lembrar de que o Sol é muito maior do que muitos planetas, e eu sou frequentemente assombrada por silenciosas verdades que talvez eu nunca saiba te dizer. Eu sinto, por exemplo, que o despertar de todas as madrugadas é a única coisa que temos, e talvez seja melhor mesmo que, ao acordar, existam sempre montanhas e montanhas de lixo a serem soterradas. Porque bem se sabe que nem tudo pode ser reciclado. Muita coisa não pode ser reciclada, digo, não tem como o solo reaproveitar tudo o que eu vejo ainda hoje. E me é difícil esperar. A espera da natureza, que se transforma através de ciclos mais ou menos precisos, e não se pode negar a natureza quando se está preso a um corpo humanizado. Na verdade, acho que eu só queria te dizer mesmo que por mais que eu me esforce, quando você vai embora, não sei o que fazer de minha existência terrena. Digo, eu não sei o que fazer quando a casa está arrumada o bastante para que eu invente convidados para o jantar.

domingo, 7 de junho de 2009

Danoninho

Eu pedi a tua atenção por um dia. Reconheço, de um jeito errado. Mas você achou melhor fazer tudo para que eu te jogasse no fundo de um poço. Hoje em dia, eu sinto a tua falta, e toda vez que eu tento encontrar o poço, eu percebo que as drogas não funcionam mais em mim. Sinto-me tão sóbria quanto o asfalto, e o verde me falta. Peço não mais pela tua atenção, peço pelo desespero. Qualquer coisa que me faça desistir do absurdo de viver a mediocridade dos que buscam a glória. Entraria por aquela porta sagrada onde muitos rezam aleluias e pedem a salvação. Mas como podem eles desejar o divino, tão longe que estão das florestas. Eu peço para ir embora. Não consigo ir. Deixar você ir. Tenho febre. E eu sempre tenho febre, eu sempre tenho. Eu sempre tenho tempo, mesmo quando o tempo me falta. Eu sempre tenho tempo de passar na farmácia quando eu tenho sono. Procuro por rosas, é uma mania, um prazer doloroso. Sempre fui daquelas que pedem para sofrer, a dor traz em si uma ternura inexplicável. Rosas vermelhas. Brancas, talvez, mas quem sabe as rosas deveriam ser todas vermelhas. E eu te daria todas as rosas vermelhas do jardim para você gostar de mim, mas eu sei que é impossível, pois as rosas têm o nome de uma cor que não existe.

domingo, 31 de maio de 2009

Cânone

I.
O céu é azul
O mar é azul
O meu coração também

II.
No alto o céu
Embaixo o chão
No meio o coração

III.
Na Blue Night Show da Augusta
Todas as putas são sereias
E é por isso que eu sempre estou lá

Fascinação

Ela tem um sorriso bonito, distraído, descontraído, instruído, genuíno, encantador. Tantos anos de pesquisa, de escrita, entrevistas, de luta, de silêncio, de dedicação. Rita, os teus olhos verdes e sombreados, tuas curvas bem definidas, ah! Conheces a história e as escolas, e ainda os brincos, sapatos... Como ele pode, ainda assim, te pedir um intervalo?

Rita, os teus olhos são vivos e preenchem o mundo com a tua presença avassalarora. Nada do que dizes inspira as abstrações das montanhas. Ainda assim, não se duvida dos duros percalços a que um dia foste submetida. Afinal, és mulher e és humana. Mas os teus olhos grandes e lindos não o mostram. És fada, fada querida. Rita! Quando entras, tudo floresce, em ti tudo combina. Tu, que dedicaste aos pais a realização de teus sonhos e trabalhos. E eu sei que quando entras, já se passa da hora de acordar.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Maio de 1989

E por mais que eu não possa compreendê-la, ainda assim posso vê-la com as mãos vazias a esperar por uma rosa que não veio. Também posso ver o inverso. Posso vê-la cansada e sozinha a brincar com uma rosa nas mãos. Por mais que ele a ame, assim como eu não posso compreendê-la, também ela não pode compreender aqueles gestos maiores de ternura e de devoção (tão avessos que parecem ser a ele). O amor é não obstante um vulto ininteligível, um espasmo, uma abstração. Por mais que ele tome conta de todo o seu ser, e lhe tome do corpo as forças, e dos músculos as formas. Não, não se pode compreendê-lo. E a sua expressão será, por consequência, sutil ou inesperada, nula ou turbulenta, e não sucumbirá diante do pó e da alquimia. Talvez ele te faça querer matar-se. Ou ainda em ser a luz que alimenta as estrelas (ou, ainda, as próprias estrelas imortais a iluminar a Terra). Tudo isso, ou ainda qualquer outra coisa. Qualquer coisa líquida que possa moldar-se muitas vezes, e infinitamente de incontáveis modos. Ainda tudo isso é amor.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Emocore

Mesmo que eu arrancasse todas as páginas do diário. Que eu apagasse tudo o que foi escrito, mesmo assim. Se eu queimasse todos os diários de todas as papelarias do mundo. Nada disso poderia arrancar de mim as páginas decompostas das coisas que me foram ditas, dos olhares amaldiçoados que me lançaram tal como marca de nascença. Nada me poderia curar, agora que estou doente e vazia de qualquer sentimento humano. Se ainda sou capaz de chorar, não é por mim mesma, nem pelo mau que a mim causaram. É algo inevitável, assim como o respirar, ou como o pulsar do coração. Algo que não pode ser controlado.

No entanto:
Se você olhasse para os meus olhos e dissesse que está tudo bem... Não pediria mais nada. Eu só queria que você me levasse até a cama para que eu pudesse dormir. Ao seu lado.